28 de mai de 2017

GREG ALLMAN, CO-FUNDADOR DA THE ALLMAN BROTHERS BAND, FALECEU

 

Greg Lenoir Allman, fundador da banda de rock sulista, The Allman Brothers Band, faleceu aos 69 anos, ontem (27/05/2017) em sua casa, de forma tranquila segundo seus familiares. Greg já estava com problemas pontuais de saúde há alguns anos.

Greg Allman em destaque, nos teclados; e Duane Allman ao fundo, na guitarra slide.
Eles eram a essência da Allman Brothers Band
Greg, junto com seu irmão, o lendário guitarrista slide, Duane Allman, fundaram o Hour Glass em 1967, um grupo com influências de rock & roll, soul, country, pop e southern rock, que durou até o ano seguinte. Com o Hour Glass foram lançados os álbuns The Hour Glass (1967) e Power of Love (1968).


The Hour Glass, dos irmãos Allman, durou de 1967 a 1968.
Em seguida formaram a famosa The Allman Brothers Band, que tinha como característica um som sofisticado de ótimo instrumental classificado como southern rock, mas também com influências do hard rock, country e blues, no final dos anos de 1960.
Greg era cantor, tecladista, guitarrista e compositor, além de liderar a banda sulista.
Junto com o irmão, Duane e o guitarrista Dickey Betts, foi autor de vários sucessos como "Ain't Wastin' No Time"; "Blue Sky"; "In Memory Of Elizabeth Reed"; "Jessica"; "Melissa"; "Midnight Rider"; "One Way Out"; "Ramblin Man"; "Southbound" e "Whipping Post".
Regravaram com sucesso blues tradicionais como "Done Somebody Wrong", de Elmore James; "Hoochie Man", de Willie Dixon; "Statesboro Blues", de Blind Willie McTell e "Stormy Monday Blues" de T- Bone-Walker.
Os álbuns essenciais da Allman Brothers Band foram: The Allman Brothers Band (1969); Idlewild South (1970); At Fillmore East (1971); Eat a Pech (1972); Brothers and Sisters (1973); Seven Turns (1990); Shades of Two Worlds (1991) e Hittin' Note (2003).
Greg também participou como convidado, junto com Duane Allman, da Delaney Bonnie & Friends em diversos trabalhos nos anos de 1970.

Capas dos principais álbuns da The Allman Brothers Band,
uma banda de southern rock com um excelente instrumental.
Sua carreira solo não ficou devendo em termos de qualidade, seus principais trabalhos fora da Allman Brothers Band foram: Laid Back (1973); The Greg Allman Tour (1974); Playin' up a Storm (1977) e Low Country Blues (2011).


Capas dos principais trabalhos solo de Greg Allman
Descanse em paz, Greg Allman.

Por Eumário J. Teixeira.

15 de jan de 2017

BRUCE LEE E A VERDADE SOBRE A LUTA CONTRA WONG JACK MAN


Deve ser lançado em 2017 um filme de produção hollywoodiana, intitulado “The Birth of the Dragon” (O Nascimento do Dragão) com uma versão fantasiosa sobre um fato ocorrido em Oakland na Califórnia, 1964. 

Birth of the Dragon, um filme fantasioso que não conta realmente a realidade do confronto
 entre Bruce Lee e Wong Jack Man, ocorrido em dezembro de 1964.
O acontecimento foi histórico e decisivo para a carreira de pelo menos um dos dois protagonistas, no caso, Bruce Lee. É bom ressaltar previamente, que o jovem Bruce Lee aqui envolvido tinha apenas 24 anos de idade, tal como seu suposto desafiante, Wong Jack Man. Ambos estavam em busca de afirmação pessoal e eram muito impetuosos.
Bruce Lee por exemplo, ia além, chegava próximo da arrogância por ter tanta convicção do que  defendia, não se importando se ofendesse aos tradicionalistas que discordavam de suas idéias revolucionárias.  Ou seja, o Bruce Lee retratado aqui não tem nada a ver com o homem maduro que nove anos mais tarde protagonizava o clássico Operação Dragão (Enter the Dragon) e que já era considerado o “rei do Kung Fu” graças à sua diversidade técnica e capacidade de se adaptar e absorver os mais variados estilos de luta, além da notória rapidez e potência de seus golpes com mãos e pés, além de perícia no manejo do nunchaku japonês, dos bastões filipinos e bastão longo chinês, um verdadeiro mito vivo que faleceria de causas ainda não muito bem esclarecidas em julho de 1973, aos 32 anos.

Bruce Lee atuando em Operação Dragão nove anos após confronto com Wong Jack Man
Da mesma forma Wong Jack Man, que nos anos posteriores ao evento ocorrido em 1964, ficou na obscuridade e longe dos holofotes, ainda que continuando a praticar e ensinar Kung Fu nos EUA. Wong Jack Man permanece discreto até hoje aos 75 anos, apesar de muitos de seus alunos ou seguidores se pronunciarem ao seu favor vez ou outra em relação ao confronto, mas seu nome viria à tona novamente em razão do lançamento do filme Birth of the Dragon, anunciado para lançamento em 2017.   


Wong Jack Man,  continuou apegado às tradições após a luta com Bruce Lee
Mas tratarei aqui das duas versões mais conhecidas sobre a razão e o desfecho da luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man ocorrida em dezembro de 1964, na academia de Bruce Lee, ou Jun Fan Gung Fu Institute, em Oakland, na Califórnia. Bruce Lee já estava nos EUA há seis anos, em sua bagagem marcial ele havia trazido experiências de brigas de rua entre gangs de adolescentes e mais quatro anos de treinamento de Wing Chun Kung Fu, um estilo tradicional do sul, considerado “feio”, mas efetivo, sob os ensinamentos de um dos ícones das artes marciais chinesas tradicionais, o lendário Ip Man e tendo como instrutor particular, o agora saudoso, Wong Shun Leung, um dos alunos mais avançado de Ip Man na época.
Graças ao seu carisma, desejo de aprender e ambição profissional, Bruce Lee se relacionou com algumas pessoas mais experientes e decisivas para seu progresso nas mais diversas artes marciais durante seus primeiros anos nos EUA. Posso citar nomes como James Yimm Lee, praticante de judô e Kung Fu; Daniel Lee, ex-campeão de boxe; Dan Inosanto, praticante de Kempô (versão japonesa do Kung Fu) e de sistemas de lutas filipinas com ou sem armas brancas; Jhoon Rhee (professor graduado de Taekwondo); Gene Lebell, campeão de Judô e Vale Tudo; Ed Parker, considerado o pai do Karatê nos EUA (na verdade Parker era faixa prêta de Kempô), etc.

As muitas influências de Bruce Lee em busca pela verdade nas artes marciais, da esquerda para a direita,
Gene Lebell, Ed Parker, Jhoon Rhee, Daniel Lee, Danny Inosanto e Jimmy Yimm Lee.
Mas, com certeza, Bruce Lee não saiu de Hong Kong formado em Wing Chun e muito menos poderia ser considerado um mestre, pois tinha apenas 18 anos e, se ele teve alguma evolução em artes marciais, foi graças ao seu relacionamento com os mais diversos artistas marciais durante sua permanência nos EUA, dentre os citados anteriormente poderíamos acrescentar também os nomes de Joe Lewis, Chuck Norris, Bob Wall, dentre outros, campeões experientes com quem ele se relacionaria e trocaria conhecimentos até retornar para Hong Kong para se tornar um astro do cinema de filmes de Kung Fu em 1971.
Segundo depoimento do mestre Wong Chun Leung, contemporâneo  da juventude de Bruce Lee e que além de amigo, foi também seu instrutor direto de Wing Chun na escola de Ip Man, Bruce teria absorvido as principais técnicas de Wing Chun de forma rápida e surpreendente.

O jovem Bruce Lee com seu amigo e "instrutor particular" de Wing Chun,  Wong Shun Leung,
na década de 1950

Wong Shun Leung "rolando as mãos" em cima da mesa
É fato que Bruce Lee tinha um dom especial para absorver quase que instantaneamente as técnicas que lhe eram transmitidas e que mais tarde procurou em outros sistemas de lutas pontos positivos que pudessem contribuir para tornar seu “sistema” de combate cada fez mais efetivo. Mas, em 1964, aos 24 anos, o jovem Bruce Lee não poderia ser taxado de “mestre”, ainda que dominasse as principais técnicas de Wing Chun e conhecesse alguns movimentos de outras escolas de Kung Fu como o Choy Lay Fut, por exemplo. Creio que da mesma forma seu oponente, Wong Jack Man, apesar de muitos defenderem que este já era dono de uma técnica notável dentro do estilo que adotou, o Shaolin do Norte, estilo tradicional desenvolvido no lendário Templo de Shaolin com base no movimentos dos animais e da natureza, composto por 10 katis (ou formas) com ou sem armas dentro do currículo de formação do estilo.  

Wong Jack Man na época do confronto com Bruce Lee (à esquerda) e
anos mais tarde (à direita) já como mestre de Kung Fu Shaolin do Norte
Wong Jack Man chegou em San Francisco naquele mesmo ano e não tinha as mesmas ambições de Bruce Lee de conquistar a fama e o “sonho americano”, mas certamente queria fundar sua própria academia na Chinatown de San Francisco e prosperar, ensinando artes marciais da melhor forma tradicional dos antigos mestres chineses.  Como já foi citado, seu estilo de Kung Fu era o Shaolin do Norte e apesar de tão jovem, Wong Jack Man ficou conhecido por ter uma técnica refinada e plástica . Seu estilo ao contrário do Wing Chun do Sul da China, era pautado por movimentos circulares, saltos, giros, e chutes espetaculares. Wong Jack Man era um praticante de uma escola tradicional fechada para outros estilos considerados rivais, mas em contrapartida, era considerando um lutador capacitado e respeitado entres os seus. No filme que será lançado para em 2017, Wong Jack Man é retratado como um monge Shaolin renegado fugido da China comunista, o que não tem nada a ver com a realidade; Wong Jack Man veio das escolas de Hong Kong e nunca foi monge ou freqüentou um templo budista.
Sobre a fama que precedeu aos dois, há registros de lutas de rua e desafios nos terraços dos prédios de Hong Kong envolvendo o jovem lutador de Wing Chun Bruce Lee, inclusive um confronto em maio de 1958 contra uma aluno da escola Shaolin do Norte chamado Robert Chung, parceiro do até então desconhecido Wong Jack Man, a quem Bruce Lee teria vencido no segundo assalto. O outro confronto ocorreu contra um jovem lutador, membro da Triad, em 1959, que teria sido ferido seriamente por Bruce Lee. Esse incidente teria sido um dos fatores determinantes para que Bruce Lee saísse às pressas de Hong Kong para fugir de represálias da máfia.
Quanto ao passado de Wong Jack Man em Hong Kong, nada se tem sobre ele em relação ao seu envolvimento nessas disputas habituais entre os jovens de escolas rivais em Hong Kong. Para se ter uma idéia, segundo conta a história, os nomes mais populares dos jovens lutadores que testavam suas habilidades nos terraços longe dos olhos da rigorosa polícia chinesa local no final dos anos de 1950, eram os de Wong Shun Leung (aluno de Ip Man e instrutor particular de Bruce Lee, na época); Wang Kiu, Lok Yiu e Tsui Sheung Tin. Já nos anos de 1960 são citados Dave Lacey (conhecido como o “Pantera Negra” do Choy Lay Fut); seu irmão Vince Lacey, Ling Hing, Leung Cheung Gwun, etc.

O famoso e lendário "General" Dave Lacey,  o "Pantera Negra" do Choy Lay Fut de Hong Kong. Nas duas primeiras fotos à esquerda pousando e lutando  em Hong Kong no final da década de 1950; e à direita, nos anos de 1990.
Abrindo uma observação sobre Dave Lacey, ele  era jovem lutador de Choy Lay Fut respeitado pelos rivais das outras escolas de Kung Fu de Hong Kong no final da década de 1950 e início dos anos de 1960. Ele era alto para os padrões chineses, mas sua agilidade, rapidez e ímpeto para o ataque causavam temor a seus adversários nas disputas ocorridas nos terraços dos prédios da cidade. Bruce Lee era um pouco mais  jovem que Lacey, mas o tinha como amigo e o admirava como lutador, tendo muito respeito pelo sistema Choy Lay Fut, considerando-o um dos poucos estilos eficientes que podiam garantir um lutador contra dois ou mais adversários ao mesmo tempo. 

Bruce Lee nos bastidores de "A Fúria do Dragão" (1972) em Cingapura, cumprimentando  
o mestre de Kung Fu Choy Lay Fut,  Kwan Mun King
Em resumo não existe nenhum dado ou menção sobre algum envolvimento de Wong Jack Man nas disputas entre os jovens lutadores de Hong Kong; ou seja, quando Wong Jack Man chegou em San Francisco em meados de 1960, não era famoso ou reconhecido como um lutador de renome, mas como um praticante mediano de Shaolin do Norte. Mas isso também não quer dizer que ele não tinha habilidades ou não era capaz como um lutador por ser mais reservado. E finalmente, as duas versões mais aceitas para a razão do duelo e seu desfecho são as das testemunhas de cada lado que lá estiveram e presenciaram. Assim, temos a versão um pouco contraditória e confusa de Linda Emery, na época noiva de Bruce Lee (já grávida de Brandon que nasceria em fevereiro de 1965) e das testemunhas  de Wong Jack Man (ainda vivo) que,  aliás, nunca se manifestou pessoalmente a respeito. As testemunhas confirmadas do lado de Bruce Lee eram Linda e James Yimm Lee (um dos primeiros e mais fiéis parceiros de Bruce Lee nos EUA).
As testemunhas do lado de Wong Jack Man, não foram satisfatoriamente identificadas pela história. Mas algumas versões citam a David Chin e William Chen, ambos praticantes de Tai Chi Chuan.
As duas versões para a razão da Luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man – A primeira versão é a considerada oficial e dada por Linda Emery. Apesar de James Yimm Lee estar presente ao lado de Linda, não se tem nenhum  registro de sua versão para os fatos ocorridos  no Jun Fan Gung Fu Institute de Bruce Lee em 1964; já que James teria falecido precocemente em decorrência de um câncer, em dezembro de 1972. Segundo Linda, mesmo estando em Oakland, no outro lado da baía, Bruce incomodava aos mestres chineses das escolas de San Francisco por insistir em ensinar aos não chineses, brancos, negros e hispânicos, os segredos das artes marciais sem a devida permissão dos “chefões” que controlavam as comunidades de origem oriental.  Desta forma, foi enviado a Bruce Lee através de David Chin, um desafio em nome dos chefões das escolas de artes marciais chinesas tradicionais  propondo a Bruce Lee uma luta contra seu representante, para decidirem através do resultado do confronto se  ele podia ou não ensinar a não chineses. Bruce teria recebido o ultimato no Jung Fan Gung Fu Institute e, de imediato, ironizou aceitando prontamente o desafio sugerindo ainda que fosse realizado o confronto o mais rápido possível.

Bruce Lee em 1964: Nas três primeiras fotos à esquerda, em demonstrações pela Chinatown;
 e na última foto à direita, pousando com seus alunos em Oakland
A segunda versão é a defendida por algumas testemunhas a favor de Wong Jack Man. Segundo consta, o jovem Bruce Lee em meados da década de 1960, tinha o hábito de perambular pela Chinatown de San Francisco para avaliar as escolas dos mais variados estilos de Kung Fu existentes por lá. O problema é que Lee costumava fazer críticas diretas aos estilos muito floreados, segundo ele, e presos às tradições às quais ele ainda julgava fantasiosas e ineficientes. E em contrapartida exaltava a praticidade e efetividade do Wing Chun, que praticava. 
Em algumas demonstrações realizadas em teatros ou salões geralmente tendo como companhia e parceria, James Yimm Lee, ele criticava diretamente e sem rodeios os outros estilos de Kung Fu ou mesmo artes marciais de origem japonesa sem ter o conhecimento aprofundado sobre as mesmas. Num desses eventos chegou a desafiar qualquer um da platéia que duvidasse de sua capacidade e da superioridade do Wing Chun.
Conta-se que Bruce Lee ousadamente teria visitado uma escola tradicional de Kung Fu Shaolin do Norte de San Francisco, em meados de 1960, e desafiado o veterano mestre T. Y. Wong, que não aceitou seu desafio por respeito ao pai de Bruce que ele conhecia. Bruce Lee teria insistido em desafiar aos  alunos graduados, mas foi forçado por T. Y. Wong a se retirar.

T. Y. Wong, que teria sido desafiado por Bruce Lee, foi ex-mestre de Jimmy Yimm Lee
Esse incidente pode ter tido um dedo de Jimmy Yimm Lee, parceiro de Bruce, mas que havia sido um aluno regular e colaborador de T. Y. Wong. Chegaram a editar o que foi considerado o primeiro livro sobre Kung Fu em língua inglesa nos Estados Unidos em 1961, intitulado “Kung Fu – Original Sil Lum System”. Uma parceira que teria sido desfeita por um desacordo envolvendo dinheiro.

Os três primeiros livros editados em inglês sobre Kung Fu nos EUA.
Bruce Lee também lançaria o único livro de sua autoria em 1963, intitulado Chinese Gung Fu – The Philosophical Art of Self Defense, contando também com a colaboração de James Yimm Lee, onde separou um capítulo para contestar as técnicas apresentadas pelo sistema de T. Y Wong.

Páginas do livro de Bruce Lee em que ele contesta certas técnicas 
do estilo Shaolin do Norte defendido por T. Y. Wong
Nesta atmosfera de rivalidade, entra Wong Jack Man, que sabendo de toda essa petulância do jovem Bruce Lee e de seus desafios  lançados aos lutadores chineses das escolas tradicionais da Chinatown, resolveu desafiá-lo, mas sem o endosso dos mestres chineses da Chinatown de San Francisco, que  também não o impediram de ir adiante. Cabe salientar que Wong Jack Man tinha a mesma idade de Bruce, 24 anos, e procurava o respeito da comunidade chinesa como um lutador que respeitava as tradições das escolas e culturas chinesas e certamente viu nessa oportunidade de confronto com o falastrão Bruce Lee uma oportunidade de “fazer seu nome” entre os mestres chineses de San Francisco.
Então, qual dessas duas versões lhe parece mais verdadeira?
As duas versões para a luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man e o seu desfecho – A primeira versão sobre a luta é a oficial e também defendida por Linda Emery, que estava noiva e grávida de Brandon na época, citada também em seu livro “Bruce Lee – The Man Only I Knew”. Mesmo essa versão de Linda apesar de ser a mais aceita pelos fãs de Bruce Lee e defendida por alguns mais próximos do círculo de amizade da família Lee, teria sofrido deturpações fantasiosas para filmes, séries e documentários. De qualquer maneira há uma controvérsia, pois há relatos em que se afirma que Linda não presenciou a luta preferindo ir para uma sala ao lado, enquanto James Yimm Lee teria permanecido com Bruce e presenciado todo o confronto e pronto para um imprevisto, sendo que alguns dizem que ele estava armado com uma arma de fogo.

James Yimm Lee, dissidente da escola de T. Y. Wong para se tornar
um dos parceiros fundamentais para a trajetória vitoriosa de Bruce Lee
Mas a maioria concorda que  Linda permaneceu presente durante toda a luta. De acordo com a narração de Linda, Wong Jack Man chegou de forma receosa, como se desculpasse por tudo aquilo e propôs que fizessem apenas uma troca de técnicas sem  que houvesse a necessidade de golpear um ao outro duramente. Bruce Lee a essa hora já estava profundamente irritado e impaciente, e ao sentir o vacilo do adversário declarou que  a luta seria sem regras, valeria tudo e só terminaria com o nocaute ou coma a desistência do adversário. Tal reação teria surpreendido Wong Jack Man e sua comitiva. Assim, os dois oponentes de cumprimentaram formalmente e se afastaram um pouco.  Bruce logo tomou a iniciativa partindo para cima de Wong Jack Man aplicando socos diretos característicos do Wing Chun. 


Bruce Lee teria partido para cima de Wong Jack Man com socos diretos
característicos do Wing Chun, segundo Linda Emery
Wong Jack Man defendia como podia recuando e sem a possibilidade de contra-atacar em virtude do ímpeto de Bruce Lee ao atacar. De repente a luta quase se torna cômica porque Wong Jack Man chega a dar as costas a Bruce Lee que o persegue pelo salão socando sua nuca. Finalmente Bruce teria derrubado Wong Jack Man  ao chão e com o punho cerrado sobre seu rosto o obriga a desistir. Linda ainda afirma que Lee o arrastou pelos pés e expulsou a  ele e suas testemunhas de  sua escola. Em seguida Bruce Lee confessaria a James e a Linda que estava exausto e decepcionado com sua performance. A luta teria durado pouco mais de três minutos, de acordo com Linda. Mas foi decisiva para Bruce Lee reformular seus conceitos sobre Artes Marciais e buscar formular um estilo mais eficiente e flexível, o que seria mais tarde conhecido como Jeet kune Do. Mas o que importava era que Bruce Lee a partir daí poderia ensinar a quem ele quisesse.


Bruce Lee e Linda Emery noivos em meados da década de 1960
A segunda versão foi dada por quem acompanhou Wong Jack Man, duas delas foram os praticantes de Tai Chi Chuan David Chin e William Chen e foi defendida pelos anos que se seguiram pelos discípulos de Wong Jack Man. Segundo os acompanhantes de Wong, Bruce Lee teria feito uma observação sarcástica, antes do início da luta, dizendo que David Chin, na verdade, lhe teria entregue a sentença de morte do próprio Wong Jack Man. Em seguida, ambos os lutadores se cumprimentaram formalmente e se afastaram, quando Wong Jack Man supostamente de maneira cordial estendeu a mão para Bruce Lee para um cumprimento informal. Bruce teria ignorado o movimento como inofensivo e lançou sua mão direita com os dedos esticados numa estocada direta a um dos olhos de Wong Jack Man que se desviou a tempo com um movimento mas sofrendo um arranhão na testa. 

Bruce não teria hesitado em usar o jab com as pontas dos dedos (biu jee) contra Wong Jack Man
Para Wong tinha ficado claro que Bruce estava decidido a acabar com a luta da forma mais rápida e dolorosa para o adversário. Bruce continuou avançando em linha reta com estocadas nos olhos, variando com socos diretos e pontapés frontais na altura da virilha de Wong que tentava se deslocar lateralmente. 

Segundo as testemunhas de Wong Jack Man, Bruce Lee foi ao ataque com sequências socos diretos,
chutes baixos e estocadas nos olhos
A luta perdurava cada vez mais frenética com Wong  recuando e tentando bloquear os ataques de Lee até que conseguiu atingi-lo na altura lateral do pescoço com o  dorso da mão  fazendo com que Bruce  se dobrasse o corpo defensivamente. Wong ainda teria prendido a cabeça de Lee por uma ou duas vezes com o braço e pode desferir golpes contra ele, mas não o fez por receio de feri-lo seriamente. A medida que o tempo  passava Bruce Lee ficava mais furioso e impaciente porque seus golpes não atingiam o alvo adequadamente. Wong por sua vez, teria declarado posteriormente que evitou usar seus chutes poderosos característicos do Shaolin do Norte por temer que fossem danosos demais para seu adversário. 

Chutes do estilo Shaolin do Norte demonstrados por Rick L. Wing, discípulo de Wong Jack Man
Mas pensou em usá-los em certo momento ao perceber que Bruce Lee parecia realmente querer feri-lo gravemente ou mesmo matá-lo. Por fim, ao adotar mais as técnicas defensivas em recuo, Wong Jack Man acabou por tropeçar e caiu. Bruce Lee saltou para cima dele para acabar de vez com a luta mas as testemunhas de ambos os lados interferiram e os separaram, já que Bruce Lee também demonstrava exaustão e Wong Jack Man estava em situação vulnerável no chão. A comitiva de Wong Jack Man afirmou que a luta  teria durado em torno de 20 a 25 minutos, um tempo bem acima da versão de Linda Emery.
Após a luta, os dois lados acordaram em não comentar mais nada fora daquele recinto e não foi definido quem teria sido o vencedor. Algum tempo depois Bruce Lee teria citado em uma entrevista que teria enfrentado um lutador de Kung Fu clássico e o teria vencido, mas não citou o nome de Wong Jack Man, que por sua vez teria proposto indiretamente a Lee outro desafio, uma tira-teima em local aberto ao público. Bruce não retornou a provocação.

Wong Jack Man já consagrado como mestre de Kung Fu Shaolin do Norte, anos após o polêmico confronto
E então, qual a versão seria verdadeira? Independentemente da verdade, ambos aprenderam com o confronto. Bruce Lee percebeu finalmente que o Wing Chun apesar de ser um estilo enxuto e prático, tinha suas limitações e o seu preparo físico estava aquém do ideal para uma situação de luta real. A  partir dessa experiência é que ele reviu seus conceitos sobre as artes marciais concluindo que cada estilo de luta seja lá de qual origem for, tem seus pontos positivos e negativos que podem ser absorvidos ou descartados de acordo com o perfil de cada lutador. Wong Jack Man com certeza percebeu que plasticidade e técnica refinada de nada valem sem espírito de luta e efetividade num  combate de vida ou morte.
É bom sempre lembrar que naquele dezembro de 1964, Bruce Lee e Wong Jack Man eram apenas dois jovens artistas marciais de 24 anos, ambiciosos, de certo modo imaturos e muito aquém de serem considerados “mestres”, mesmo considerando o incomum e precoce talento de ambos como lutadores. Não há como enxergar, por exemplo, o jovem Bruce Lee de 1964 com conhecimento técnico e destreza suficientes para coreografar as cenas de lutas de A Fúria do Dragão (1972), O Vôo Do Dragão (1972), Operação Dragão (1973) e o inacabado O Jogo da Morte (1978). A evolução técnica dele foi notória, da mesma forma deve ter sido para Wong Jack Man nos anos que se seguiram.




A evolução técnica de Bruce de 1964 a 1973 se tornou evidente nas telas dos cinemas
Bruce Lee posteriormente chegou ao estrelato e fama mundial graças aos seus filmes, filosofia, concepção revolucionária e libertária sobre as artes marciais, gerando o que ele denominou Jeet Kune Do (O Caminho do Punho Interceptor) que influenciou direta ou indiretamente nas práticas de treinamento e luta para a maioria dos esportes de combate até hoje.
Por sua vez, Wong Jack Man prosseguiu seguindo a tradição ancestral da sua escola e de forma reservada, se tornando mestre, formando professores e estes por sua vez direcionado seus discípulos dentro do melhor estilo chinês.
Para terminar, dizem  que quando a poeira se assentou algum tempo depois do confronto, Bruce entrou num restaurante onde Wong Jack Man trabalhava como garçom e se aproximando, lhe disse descontraidamente algo parecido como: “Ei cara,  não leve tudo isso a sério, eu só queria fazer o nome da minha escola”.

Por Eumário J. Teixeira

29 de jun de 2016

SCOTTY MOORE, O PRIMEIRO GUITARRISTA DE ELVIS, FALECEU!



Scotty Moore faleceu (em 28 de junho de 2016). Ele foi um guitarrista norte-americano nascido em Gadsden, Tennessee. Tocou com Elvis Presley no período de 1954 até 1968. Era membro do "Hall da fama do rock" e foi considerado o 29º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone. Seu estilo de tocar fez escola e influenciou guitarristas de rock como George Harrison, Keith Richards e Jeff Beck. Moore estava com 84 anos. 

Eumário J. Teixeira

18 de jun de 2016

CARRÕES FAMOSOS DA TV E DO CINEMA – Parte IV – Ford Mustang GT-390, de Bullit


Um filme que é a cara do final da década de 1960 e início da década de 1970, foi “Bullit”, estrelado por Steve McQueen, sem dúvida o maior astro dos filmes policiais e de ação da época. Steve McQueen já reinava nas telas antes mesmo da consolidação de outros astros “durões” como Clint Eastwood e Charles Bronson. O filme Bullit, em especial, foi marcante por exibir uma das mais intensas perseguições de carros já filmadas.

Bullit, um dos melhores filmes de Steve McQueen

Bullit foi lançado em outubro de 1968 nos EUA, sob a direção de Peter Yates e com o roteiro adaptado de Alan Trustman e Harry Kleiner, baseado no livro “Mute Witness” de Robert L. Fish, de 1963. A música original rica em elementos de um jazz suave foi composta por Lalo Schifrin, o mesmo que compôs mais tarde a clássica trilha sonora para Enter the Dragon (Operação Dragão, com Bruce Lee, em 1973).



O duelo entre o Ford Mustang GT-390 e o Dodge Charger R/T pelas ruas de San Francisco
Mas o que mais chamou a atenção no filme não foi tanto a sua conclusão no final, mas uma cena anterior de perseguição de carros pelas ladeiras da cidade de São Francisco, na Califórnia. Os dois veículos envolvidos eram um Ford Mustang GT-390 verde, dirigido pelo oficial de polícia Bullit (Steve McQueen) e o Dodge Charger R/T negro guiado pelos assassinos profissionais, que saltavam pelas ruas da cidade donde se pregava a cultura do “flower power”.

Steve McQueen, perfeito para o papel de Bullit. Carros e alta velocidade era com ele mesmo.


Detalhes do Ford Mustang sob a direção de McQueen
A filmagem de tal duelo automobilístico com todo aquele estilo inovador influenciou os filmes policiais nos anos seguintes, como a série “Dirty Harry” (com Clint Eastwood) e “Operação França I e II” (The French Connection, em 1971 e 1975), com Gene Hackman.
Bullit sempre é lembrado com um dos melhores trabalhos de Steve McQueen, e é sempre mencionado nas rodas de conversa quando se fala em perseguições automobilísticas.
Steve McQueen era conhecido por sua paixão por guiar carros e motocicletas em alta velocidade. 

Steve McQueen em Fugindo do Inferno numa motocicleta nazista
Para quem gosta de alta velocidade nas telas, As 24 Horas de Le Mans, com McQueen, é essencial
No filme “Fugindo do Inferno (The Great Escape, de 1963) McQueen protagonizou a famosa cena de fuga de um campo de prisioneiros pilotando uma motocicleta do exército alemão; sendo que o famoso salto sobre a cerca de arame farpado com a moto nazista foi na verdade executado pelo dublê Bud Ekins. No filme “As 24 horas de Le Mans” (Le Mans, de 1971), McQueen também teria guiado, em algumas tomadas, um dos três Porsches de número 917 utilizados para a filmagem, já que por razões contratuais e de segurança teve que dividir a cenas com o piloto Hebert Linge. 



As linhas arrojadas do Ford Mustang GT-390 e o motor V-8
Assim também ocorreu ao guiar o Ford Mustang modificado de motor V-8 em alguns trechos da famosa cena de perseguição em Bullit, ao abrir mão das cenas mais perigosas, mais uma vez, para o dublê Bud Ekins. O resultado de seu esforço sob a direção de Yates foi compensador. E certamente a procura pelo Ford Mustang GT-390 teve ter aumentado bastante nas concessionárias, depois do filme.




Ford Mustang GT-390, um objeto de culto até hoje
Da mesma forma, a performance do Dodge Charger R/T não ficou para trás, mas alguém teria que perder na perseguição e não seria o  “mocinho” com seu Mustang GT. Pressionado por Bullit, o motorista do Dodge perde a direção e acaba se chocando com as bombas de gasolina num posto às margens da rodovia. Ocorre uma tremenda explosão e o fogo consume o Dodge com seus ocupantes dentro.


O Dodge Charger R/T cumpriu muito bem o seu papel no filme com seu belíssimo design e desempenho
Réplicas do Ford Mustang GT-390, principalmente, e do Dodge Charger R/T são colecionados e conservados até hoje mundo afora. E não é difícil para os fãs aficionados conseguir suas miniaturas pela internet.

Miniaturas do ford Mustang GT-390 de Bullit


Afirmo que vale a pena assistir o filme Bullit e esperar pela famosa cena de perseguição com o Mustang GT e o Dodge Charger, foi incrivelmente bem filmada e você se sente num daqueles carros, perseguindo ou sendo perseguido em altíssima velocidade.

Por Eumário J. Teixeira